A laqueadura tubária é uma das formas de contracepção permanente mais conhecidas. Mas ela é sempre a melhor escolha? Como se compara à salpingectomia, à oclusão tubária histeroscópica e ao DIU hormonal? Este artigo reúne o que a ciência atual diz sobre eficácia, segurança e indicações de cada método.
O que diferencia a laqueadura tubária das outras opções cirúrgicas
Quando uma mulher decide que não deseja mais engravidar, existem diferentes caminhos cirúrgicos disponíveis. A laqueadura tubária laparoscópica é o procedimento mais tradicional: as tubas uterinas são ocluídas por meio de grampos, anéis ou cauterização, impedindo que o óvulo e o espermatozoide se encontrem. Pense nas tubas como uma estrada que conecta o ovário ao útero — a laqueadura fecha essa estrada de forma permanente.
Nos últimos anos, a salpingectomia bilateral — que consiste na remoção completa das tubas — ganhou espaço como alternativa. Uma das razões é que estudos demonstraram que tanto a laqueadura quanto a salpingectomia oferecem proteção contra o câncer de ovário, mas a remoção total das tubas parece ampliar esse benefício. Segundo a literatura científica, todas as formas de interrupção tubária demonstraram efeito protetor contra cânceres ginecológicos, especialmente o câncer de ovário (Radu et al., 2024; Mullany et al., 2023).
A salpingectomia, porém, leva em média de 3 a 16 minutos a mais para ser concluída do que a laqueadura laparoscópica convencional (Strandell et al., 2024; Gormley et al., 2021). Em relação a complicações intraoperatórias, transfusões e reinternações, os estudos não encontraram diferença significativa entre os dois procedimentos. A principal dúvida que ainda persiste na ciência diz respeito ao impacto da salpingectomia sobre a reserva ovariana — ou seja, sobre a capacidade funcional dos ovários. Os resultados são inconsistentes: alguns estudos não identificaram prejuízo significativo a curto prazo, enquanto outros observaram queda em marcadores como o hormônio anti-Mülleriano (AMH) após a cirurgia (Papageorgiou et al., 2025; Radu et al., 2024). Essa questão ainda não tem resposta definitiva na literatura.
Oclusão histeroscópica e DIU hormonal: alternativas sem corte abdominal
Existe também a oclusão tubária histeroscópica, um procedimento realizado pelo interior do útero, sem incisões abdominais. Por não envolver cortes, as mulheres submetidas a esse método precisam de menos dias de licença médica em comparação com a laqueadura laparoscópica (Gormley et al., 2021). É como trocar uma reforma com quebra de paredes por uma intervenção feita apenas pelo corredor já existente.
No entanto, essa opção apresenta uma desvantagem importante: o risco de necessitar de uma reoperação é significativamente maior do que com a laqueadura laparoscópica (Gormley et al., 2021). Isso significa que, apesar da recuperação mais rápida, a eficácia a longo prazo pode exigir uma segunda intervenção em alguns casos.
Quanto ao DIU de levonorgestrel (DIU-LNG), que é um dispositivo intrauterino hormonal altamente eficaz e reversível, ele seria um candidato natural para comparação com os métodos definitivos. No entanto, revisões científicas recentes concluíram que não existem estudos de alta qualidade comparando diretamente o DIU-LNG com as formas cirúrgicas de esterilização — o que impede conclusões definitivas sobre qual seria superior em eficácia ou segurança (Gormley et al., 2021; Magarakis et al., 2023). Essa é uma lacuna real na literatura médica atual.
O que a ciência ainda não respondeu — e por que isso importa para você
A medicina baseada em evidências parte do princípio de que as decisões clínicas devem ser sustentadas por dados sólidos. Nesse campo, ainda há muito a ser investigado. Uma revisão publicada recentemente concluiu que faltam estudos de alta qualidade que comparem diretamente as diferentes formas de esterilização cirúrgica entre si, e dessas com alternativas como o DIU hormonal (Magarakis et al., 2023). Para preencher parte dessa lacuna, o ensaio clínico SALSTER está em andamento, randomizando quase mil mulheres entre salpingectomia e laqueadura laparoscópica, com avaliação da reserva ovariana após um ano (Strandell et al., 2024).
O que isso significa na prática? Que a escolha entre laqueadura, salpingectomia ou outro método contraceptivo definitivo não deve ser baseada em preferência pessoal isolada — nem do médico, nem da paciente. Ela deve considerar a idade da mulher, seu histórico clínico, o desejo de proteção adicional contra câncer de ovário, o tempo de recuperação disponível e, acima de tudo, uma conversa franca sobre o que cada opção oferece e o que ainda não se sabe com certeza.
Nenhum método é universalmente superior. A decisão mais segura é sempre a mais informada.
Referências bibliográficas
Gormley et al., 2021. Reproductive Health
Magarakis L, et al., 2023. BMJ Open
Radu T, et al., 2024. Journal of Clinical Medicine
Carson SA, Kallen AN, 2021. JAMA
Strandell A, et al., 2024. The Lancet Regional Health – Europe
Mullany et al., 2023. Women’s Health
Papageorgiou D, et al., 2025. Biomedicines
Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure um profissional de saúde.
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![]() | Dr. Luiz Sabaini Ginecologista CRM/SP 222.683 | RQE 131795 |




